A política atravessa o samba: disputa eleitoral chega à cúpula da Liesa; Imperatriz pede título de eleitor em recadastramento de sambistas

A política entrou de vez no samba. E, desta vez, não foi pela avenida.
A eleição presidencial rachou até a cúpula da Liga Independente das Escolas de Samba, a Liesa, entidade que comanda o maior espetáculo do carnaval carioca. De um lado, Evelyn Bastos, eterna rainha de bateria da Mangueira e diretora Cultural da Liga, não esconde o voto em Lula (PT). Do outro, Cátia Drumond, presidente da Imperatriz Leopoldinense e diretora Financeira da Liesa, prefere o meio-termo que não combina com lantejoulas, lamê e paetês.
Mas, até aí, democracia. Cada um com seu voto, seu samba e sua fantasia.
O problema é que a política não parou na mesa de decisões da Liesa.
Cátia é mãe de João Drumond, candidato a deputado estadual pelo PRD que recebeu 55.759 votos no domingo (4). Foi uma das maiores votações nominais para a Assembleia Legislativa, mas a candidatura está sub judice e o destino dos votos ainda depende da Justiça Eleitoral.
Durante a campanha, justamente pelo envolvimento do filho na disputa, Cátia tentou convencer a Liesa a adotar uma espécie de neutralidade eleitoral. A ideia era evitar que manifestações políticas de integrantes do mundo do samba — tradicionalmente alinhados à esquerda — acabassem respingando na candidatura de João.
Não funcionou.
No carnaval, onde os tons neutros nunca combinaram com alegorias e adereços, muita gente preferiu deixar clara a própria posição. Não foram poucos, nem pouco representativos. Dá para dizer que quase todo mundo declarou voto. E na esquerda.
Leandro Vieira, Selminha Sorriso, Edson Pereira, Tarcísio Zanon, Neguinho da Beija-Flor, Guanayra Firmino e praticamente toda a diretoria da Portela estão entre os nomes que fizeram manifestações favoráveis a Lula.
A tentativa de enquadrar o samba numa moldura politica, portanto, não passou da concentração.
Mas dentro dos muros da quadra da Imperatriz…
Mas é na própria Imperatriz que a mistura de carnaval, política e eleição vem produzindo as coreografias mais delicadas.
Cria do Complexo do Alemão, onde mantém uma escola de lutas para os jovens da favela, Maria Mariá ocupou por três carnavais o posto de rainha da Swing da Leopoldina. Estava à frente da bateria justamente em 2023, quando a Imperatriz voltou a ser campeã depois de 22 anos, com “O aperreio do cabra que o excomungado tratou com má-querença e o santíssimo não deu guarida”, de Leandro Vieira.
Maria deixou a coroa antes do carnaval de 2026. Na ocasião, a própria Imperatriz anunciou sua saída do posto com elogios e informou que ela permaneceria na escola.
De lá para cá, porém, a relação azedou.
Segundo relatos de integrantes da Imperatriz, depois que se recusou a participar de um evento de campanha de João Drumond no Complexo do Alemão, Maria Mariá passou a ser impedida de frequentar a quadra. A moça sequer entrou na final da disputa de samba-enredo.
E não seria um caso isolado.
Integrantes da harmonia, alguns com décadas de serviços prestados à escola, também estariam sendo afastados por defenderem votos em candidatos da esquerda.
Título de eleitor, exigência para o recadastramento
Em maio, a mais famosa escola da Leopoldina promoveu o recadastramento dos componentes que desfilaram em 2026, devolveram suas fantasias e pretendiam voltar à Sapucaí em 2027.
Além de identidade, CPF e comprovante de residência, houve uma exigência bastante incomum para quem pretendia atravessar a Avenida fantasiado: título de eleitor.
No mundo do samba, não há registros de o documento eleitoral fazer parte do figurino burocrático exigido para desfilar.

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