• Rio de Janeiro, 05/05/2026
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Aurílio Nascimento

Homicídio não esclarecido

Aurílio Nascimento
Homicídio não esclarecido


O mais grave crime tipificado no Código Penal é o homicídio. Na média dos últimos anos, computa-se mais de quarenta mil mortes por ano. É um número alto, embora venha caindo. Nesse contexto, as polícias judiciárias de todo o país são frequentemente acusadas de descaso na investigação, falta de interesse e despreparo. Tais acusações colocam sobre os ombros dessas instituições a responsabilidade única de não se desvendar o crime, ignorando vários outros fatores, como brechas na legislação que permitem todo tipo de manobra para travar o andamento dos trabalhos, e um fator que considero o mais terrível: interferências externas quando se trata de homicídio envolvendo pessoas de destaque na sociedade.

Lilian era uma jovem de vinte e dois anos, nascida e criada no subúrbio do Rio de Janeiro. Sonhava mudar de vida, morar na Zona Sul, estudar, trabalhar. Aos poucos, com muito esforço, foi galgando o que pretendia. Entrou para a faculdade de Direito e, lá, conheceu um rapaz com quem passou a se relacionar. Arrumou um trabalho como secretária no escritório de um homem muito importante. Logo saiu do subúrbio e, junto com o namorado, alugou uma quitinete em um bairro da Zona Sul. No seu diário, anotava todos os detalhes do trabalho e não estava satisfeita com o que observava. Eram reuniões de negócios escusos, corrupção, pedidos de ajuda para interferir em processos judiciais. Aquele era um mundo que a assustava, ficava nervosa.

Certo dia, Lilian não retornou à noite da faculdade. O namorado, em desespero, saiu à sua procura. Já era madrugada quando chegou ao escritório e forçou a porta. O corpo de Lilian estava no banheiro. Ela fora barbaramente espancada, alguns móveis estavam revirados, o que significava que ocorrera uma luta corporal. A bolsa estava aberta no chão, e seu diário tinha sumido.

A violência foi tamanha que chumaços de cabelo estavam colados nos azulejos do banheiro. Quando a polícia examinou o local, um detalhe chamou a atenção: o assassino cobriu o rosto da vítima com um casaco. Isso mostrava que ele era um conhecido da vítima. A perícia descobriu um detalhe importantíssimo, que certamente levaria à identificação do autor. A vítima possuía, sob suas unhas, pequenos pedaços de pele, o que indicava que lutou com o assassino. Conseguir comparar o resultado com os suspeitos, poucos, era o desafio.

De braços dados, policiais e a representante do Ministério Público lutaram com força para transpor as dificuldades que surgiam a cada instante. Uma força invisível e misteriosa atacava por todos os lados. Os policiais que trabalhavam na investigação foram transferidos para outros lugares num passe de mágica. Pedidos de diligências levavam meses e meses para se obter uma resposta, e quando chegava era uma negativa.

Numa noite, o policial se reuniu com a representante do Ministério Público e fez duas perguntas: o que vamos fazer diante de tantas dificuldades? Como vamos enfrentar esse monstro invisível e poderoso? A mulher, cuja missão era defender a sociedade, acusar, olhou para o policial por alguns instantes, colocou as mãos no rosto, abaixou a cabeça e exclamou baixinho, quase em soluço: "Meu Deus, como é difícil fazer justiça". O crime prescreveu e nunca foi solucionado. A polícia ficou com a culpa pelo fracasso, e os suspeitos foram felizes para sempre.



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