Aurílio Nascimento
O vil metal
O adjetivo "vil" significa sem valor, que não presta. Durante o desenvolvimento das sociedades, metais raros, como ouro e prata, eram utilizados como moeda de troca, no comércio e nas transações financeiras. O termo "vil metal" surgiu no tempo para classificar toda a desgraça que a busca insana pela fortuna, pelo dinheiro, causou a humanidade. Centenas de grandes escritores dedicaram boa parte de suas vidas a estudar e escrever sobre o vil metal. Um deles, o russo Leon Tolstói, em 1886 escreveu um conto intitulado "De quanta terra um homem precisa". Um camponês ganancioso se envolve em um negócio confuso na compra de mais e mais terras baratas, certo de que está levando grande vantagem. Uma noite, sonha que está morto aos pés do Diabo, o qual sorri com alegria. No dia seguinte, ao tentar medir suas terras, se desespera e morre. Seu empregado o enterra em uma cova de um metro de oitenta. Era apenas aquele pedaço de terra que precisava.
No século XIX, o lema vigente na França era: "enriquecei-vos". Era apenas um pedido do governo para o povo concordar com as guerras de conquistas, ou seja, tomar à força de outras nações suas riquezas.
Quando o conquistador espanhol Hernán Cortés chegou ao México, em 1519, e teve contato com a civilização asteca, ficou estarrecido diante da abundância de ouro usado por aquele povo. Para os astecas o ouro não tinha importância econômica, a quantidade de adereços que eles usavam confeccionados em metal precioso, se devia ao brilho, a durabilidade e a facilidade em moldar o metal. Montezuma, o imperador, sem compreender o grande interesse do conquistador por ouro, quis saber o motivo. Cortés respondeu que eles, os espanhóis, sofriam de uma doença e que o remédio para a cura era justamente aquele, digamos, metal insignificante.
Não raro, chega ao nosso conhecimento notícias policiais sobre crimes envolvendo a morte de parentes por outros parentes, cujo objetivo era o "vil metal", o dinheiro. A adolescente Suzane Von Richthofen assassinou os pais de forma cruel, em conluio com o namorado, para ficar com a fortuna deles. O famoso caso do assassinato do pastor Anderson do Carmo, marido da ex-deputada Flordelis dos Santos de Souza, teria sido motivado por dinheiro.
Os casos policiais envolvendo tragédias, mortes, assassinatos, sendo a causa o dinheiro, certamente justificam a criação de uma enciclopédia especial, embora na literatura o número de títulos sobre o assunto seja grande. O eixo principal dos noventa e sete romances da "Comédia Humana" de Honoré de Balzac é exatamente este: ''Ganhar e perder". No cinema, inúmeros clássicos, como em "O sol por testemunha" de 1960 estrelado por Alain Delon. Contratado por um bilionário para ir até a Europa convencer o herdeiro a retornar aos EUA e assumir os negócios do pai, o contratado não consegue o objetivo. Seu contratante corta seu pagamento. Este resolve, então, matar o herdeiro e assumir sua identidade, e continuar vivendo a boa vida de playboy dele.
Em uma parábola antiga, conta-se que em um reino tudo transcorria muito bem. Não havia fome nem guerras. Todos tinham onde morar, supriam suas necessidades sem problemas, faziam festas. Porém o rei era infeliz. Sofria e não sabia os motivos. Os sábios foram então reunidos para estudar o problema. Concluíram que para ser feliz o rei deveria usar uma camisa de um homem que fosse feliz. Emissários do rei foram despachados por todo o reino indagando se as pessoas eram felizes. Todos respondiam que faltavam algo, que queriam mais. Um dos emissários, ao passar por um homem capinando na beira de um rio, onde ao lado havia uma choupana, fez a pergunta e para sua surpresa, o homem respondeu que sim. Eufórico por seu achado, o emissário do rei desceu do cavalo e intimou o homem a entregar uma camisa para que fosse usada pelo rei. O homem respondeu: Eu daria com a maior satisfação e prazer, mas eu não tenho uma camisa, nunca tive uma.



COMENTÁRIOS