Aurílio Nascimento
Torpeza bilateral
A mulher entra na delegacia desesperada, pede para ser atendida urgente, informa que foi assaltada. Um policial a leva até a mesa de atendimento, pede calma, e pergunta o que aconteceu. A mulher diz que foi assaltada, perdeu suas joias e outros bens. Quando foi isto, hoje? Pergunta o policial. Não, tem mais ou menos dois meses. Responde a “vítima”. Como assim, tem dois meses que a senhora diz que foi assaltada, e só agora a senhora vem a delegacia? Eu conheci duas mulheres na rua, e elas disseram que eram ciganas. A mulher inicia seu relato. Disseram elas que estavam passando por dificuldades, e me mostraram uma barra de ouro, que valia mais de cinquenta mil reais, e estavam vendendo por vinte mil, pois tinha pressa para arrumar dinheiro. Fui com elas a uma loja que a uma loja que compra ouro e lá disseram que era ouro mesmo e que valia muito. Como não tinha o dinheiro, fui com elas a minha casa, e lá elas escolheram as joias que tinha. Hoje voltei à loja para vender a barra de outro, e disseram que era chumbo, pintado.
O policial olho com raiva para a mulher, resolveu fazer o registro. O comportamento desta “vítima” é chamado no Direito de Torpeza Bilateral, quando a pretensa vítima, acha que está levando vantagem em uma transação, quando na verdade são os estelionatários que saem na vantagem. Não é raro pessoas comprarem máquinas que imprimem dinheiro, diamantes caros, para logo depois descobrirem que foram ludibriadas pela ganância, pela ânsia de levar vantagem.
A torpeza bilateral também ocorre na política, quando o eleitor se deixa levar por promessas sem avaliar a possibilidade de que sejam cumpridas. Políticos desonestos são mestres neste golpe. O eleitor se deixa levar. Prometem que as pessoas não vão mais precisar trabalhar, que ele vai tomar tudo dos ricos, dos bilionários que só tem suas imensas fortunas, porque tomaram dos mais pobres. Votem em mim, vocês vão ter casa, carro, moradia, e um bom auxílio, para viverem sem se preocupar em acordar cedo todos os dias, pegar trem, ônibus e trabalhar. Também não vai faltar escola e nem hospital. Tudo será de graça. Usam e abusam de falácia, como “vou acabar com a fome”, um argumento impactante, que impede as pessoas de raciocinarem e ao menos, por uma questão lógica abonar por alguns minutos a ignorância e se perguntarem: o que é a fome? Tema sobre o qual falarei em um próximo texto.
Quando eleito, o político precisa manter a promessa e justificar sua fraude. O eleitor continua acreditando. O político então distribui algumas migalhas, justifica sua dificuldade em cumprir a promessa mentirosa. Esconde a realidade com grande propaganda. As favelas continuam onde sempre estiveram, as palafitas também, não há um metro de esgoto, as crianças nas escolas comem comida estragada, compradas com preços superfaturados, e saem de lá sem saber ler e nem escrever. Toda vítima da torpeza bilateral, seja financeira ou política, merece seu prejuízo.



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