• Rio de Janeiro, 29/09/2026
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Jackson Vasconcelos

Latif, Cafardo e um plano de governo

Jackson Vasconcelos
Latif, Cafardo e um plano de governo

Este é o último domingo antes de mais uma eleição para a Presidência da República, para o Congresso Nacional, para as Assembleias Legislativas e para os governos estaduais, no curso de uma campanha em que, pela primeira vez, quase nada, ou mesmo nada, se ouviu sobre educação e escolas. A pancadaria substituiu os temas tradicionais.

Fui ao capítulo 2 do livro “Nós do Brasil, nossa herança e nossas escolhas”, da economista Zeina Latif: “O pecado original foi negligenciar a educação”.

Zeina sintetiza as 24 páginas do capítulo, rico em informações, dados e conclusões, nas palavras do professor Naércio Menezes Filho: “No Brasil, o futuro de uma criança está em grande parte determinado pelas condições socioeconômicas da sua família no momento do nascimento. (…) Como nascer em uma família rica ou pobre não é o resultado de mérito, e sim de sorte, a loteria da vida é o principal determinante do sucesso da vida no Brasil”.

E isso, entra ano, sai ano, entra eleição, impeachment, confusão, nada muda.

Diz Zeina: “Do ponto de vista político, é muito mais fácil prover o acesso das crianças à escola do que garantir que os jovens sairão do ensino médio bem formados, inclusive para ingressar na universidade. O dividendo político é maior também, pois a sociedade identifica mais rapidamente os ganhos com a construção de escolas e a contratação de professores.

Já a qualidade de ensino requer uma maior capacidade de articulação entre os vários atores. Envolve substituir, treinar e requalificar professores despreparados, revisar e atualizar currículos, além de modernizar instalações para a nova realidade tecnológica.

É necessário inserir meritocracia na gestão do ensino e monitorar os alunos. Alunos faltam, não fazem lição de casa, abandonam a escola; professores faltam, muitos não corrigem a lição de casa etc.; e nada acontece”.

Provocado pela obra, fui conhecer o Manifesto dos Pioneiros, citado por Zeina quando ela faz referência ao governo Vargas.  Diz ela:  “Ao mesmo tempo, ideais democráticos influenciam intelectuais. Era o caso da Escola Nova, projeto liderado por Fernando de Azevedo, Anísio Teixeira e Lourenço Filho, que elaboraram o ‘Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova’, em 1932, com a participação de mais de uma dezena de intelectuais.

O documento foi publicado simultaneamente em vários órgãos da grande imprensa brasileira, sendo Júlio de Mesquita Filho, do jornal O Estado de São Paulo, também signatário. 

O manifesto apontava a educação elementar como direito de todos e se propunha a unir a formação geral com a prática para o trabalho, ou a educação técnica — revolucionária para um país onde o trabalho manual era bastante desvalorizado”.

Faz 94 anos, portanto, que um grupo de educadores apresentou ao país uma pergunta que continua atual: que futuro pode ter uma nação que trata a educação como uma sucessão de iniciativas isoladas?

O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova criticava a falta de continuidade das reformas e defendia um sistema de ensino capaz de acompanhar o estudante ao longo de sua formação. Para seus autores, a educação precisava ocupar o centro do projeto nacional.

Havia outra ideia decisiva: aproximar a escola da vida. Os pioneiros queriam que o aluno observasse, experimentasse, criasse e compreendesse a comunidade em que vivia. O trabalho aparecia como parte dessa formação, ao lado da ciência, da arte e da literatura. A educação técnica ganhava dignidade, sem que o estudante fosse reduzido à função de produzir.

Essa visão ajuda a enfrentar uma escolha falsa que ainda empobrece o debate: formar cidadãos ou preparar pessoas para o trabalho. Uma boa escola deve fazer as duas coisas. Ler, argumentar, conhecer a história e participar da vida pública são capacidades tão necessárias quanto dominar conhecimentos científicos e técnicos.

É possível discutir os métodos e as premissas de um texto escrito há quase um século. O que merece permanecer é sua exigência de coerência: garantir acesso, preparar professores, ligar as etapas do ensino e dar continuidade às políticas educacionais. O próprio manifesto identificava na fragmentação e na falta de um plano duradouro um obstáculo à construção de um sistema escolar.

Eis o manifesto na íntegra: https://www.histedbr.fe.unicamp.br/navegando/acervos/o-manifesto-dos-pioneiros-da-educacao-nova

E nada melhor, entendo eu, do que terminar este texto sugerindo a leitura do artigo de Renata Cafardo, “Conversar sobre a escola faz diferença”, publicado no Estadão, que compartilho na íntegra:

Renata Cafardo
Conversar sobre a escola faz diferença

“Como foi a escola hoje?” “Legal.” “E o que você fez?” “Nada.”

Quem tem adolescente em casa provavelmente conhece esse diálogo. A criança que antes contava tudo passa a responder com monossílabos e parece considerar qualquer pergunta dos pais uma espécie de interrogatório. Cansados de insistir, muitos pais acabam desistindo.

O Pisa, a maior avaliação de estudantes do mundo, feito com alunos de 15 anos de 91 países, traz mais um argumento para continuar tentando: estudantes que relatam receber mais apoio da família tendem a ter melhor desempenho em Ciências e atitudes positivas quanto à aprendizagem. Os resultados foram divulgados neste mês pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

E não é sobre ajudar na lição de casa ou controlar as notas. A associação positiva aparece principalmente quando os pais demonstram interesse pela vida escolar cotidiana, perguntam o que o filho fez e aprendeu naquele dia, querem saber como ele está indo e conversam sobre eventuais problemas na escola.

Em países da OCDE, foi registrado um aumento de 26 pontos na nota dos alunos que dizem que os pais conversam com eles sobre como foi o dia de escola com frequência. No Brasil, foram 17 pontos. Para se ter uma ideia, a escala do Pisa considera a diferença de 20 pontos como um ano a mais de escolaridade.

“Estudantes que relatam receber mais apoio da família tendem a ir melhor em Ciências”

O que preocupa é que as conversas do dia a dia estão diminuindo. Nos países da OCDE, a parcela de estudantes que diz que os pais perguntam pelo menos uma vez por semana o que fizeram na escola caiu de 77% para 71% entre 2022 e 2025. No Brasil, a queda foi ainda maior: de 62% para 51%.

O adolescente pode revirar os olhos, responder “nada” ou “não lembro” e parecer absolutamente desinteressado em contar o que aconteceu. Isso não significa necessariamente que não queira que os pais se interessem. Pode significar apenas que conversar deixou de ser fácil. É preciso insistir.

Pesquisa recente do IBGE com meninos e meninas de 13 a 17 anos mostrou neste ano que menos adolescentes acham hoje que os pais entendem seus problemas: são 63%. E cerca de 26,1% dizem sentir constantemente que ninguém se preocupa com eles. Além da aprendizagem mostrada pelo Pisa, manter esse canal aberto é crucial para o vínculo entre pais e filhos. Não é preciso tornar o jantar uma reunião pedagógica. Pode ser uma pergunta simples, como “O que você aprendeu hoje que achou interessante?”. E, se a resposta for “nada”, vale tentar de novo amanhã.

Renata Cafardo



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