PF aponta uso de estruturas da Defesa do Consumidor pelo crime organizado no Rio
As recentes investigações da Polícia Federal que apuram as ligações entre o crime organizado, política e administração pública do Rio apontam que parte das estruturas de Defesa do Consumidor estavam sendo usadas para auxiliar as atividades criminosas, como o vazamento de informações sigilosas. Nesta quinta-feira, a Polícia Federal deflagrou mais uma etapa da operação Unha e Carne, mirando um grupo acusado de montar um cartel de postos de combustíveis e lavar dinheiro nessas empresas. A ação prendeu o deputado estadual eleito Marcio Canella (União), o ex-secretário de Polícia Civil Marcus Amim e outros agentes da Polícia Civil fluminense. No relatório, os delegados da PF ainda apontam que a organização criminosa conseguia informações antecipadas das fiscalizações de postos do grupo dos Procons estadual e municipal da capital.
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As investigações identificaram comunicações entre o policial civil Pablo Russo e servidores e fiscais vinculados ao Procon Carioca, ligado à prefeitura do Rio, e à Secretaria de Estado de Defesa do Consumidor (Sedcon) e ao Procon RJ, ligado ao governo estadual. Em uma conversa obtida pela PF, um advogado repassa a Pablo Russo informações sobre uma fiscalização que ainda seria realizada. Em uma mensagem de áudio encaminhada a Russo em 15 de abril deste ano, o homem avisa:
“Amanhã vai ter fiscalização do Procon/Rio em São Gonçalo. Acabaram de avisar Tchetcheco aqui. E aí ele não sabe quais os postos que vão fazer. Mas amanhã de manhã, quando a equipe se encontrar, ele vai pegar a relação e vai me mandar. Mas, de antemão, é pra todo mundo ficar de alerta, tá?”
Tchetcheco é o apelido de Luiz Ricardo Estevam Lima, líder comunitário em São Gonçalo. Ele foi coordenador do projeto Balcão do Consumidor, da Secretaria Estadual de Defesa do Consumidor na cidade. O programa foi suspenso em junho durante investigações do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) sobre o contrato, conforme mostrou o GLOBO. Segundo a Polícia Federal, há indícios de violação do sigilo funcional e corrupção passiva dele.
Em suas redes sociais, Tchecheco ostenta fotos de agendas com diversos políticos e até comandantes de batalhões. Nesta sexta, publicou um vídeo dizendo que irá se pronunciar quando tiver acesso às investigações.
— Minha consciência está tranquila. Quem não deve não teme — disse.
Em nota, o Procon RJ disse que Tchecheco não tinha vínculo funcional, não era servidor efetivo nem ocupante de cargos comissionado. A autarquia informou que abriu uma sindicância para apurar os fatos e “assegurar a transparência, a responsabilidade institucional e o esclarecimento integral dos acontecimentos”.
O relatório da 8ª etapa da operação Unha e Carne também cita Edvaldo Ferreira Borges, o Biscoito, como responsável pelo vazamento de outra operação que mirava fiscalizar postos. Ele é servidor comissionado do Procon Carioca, estrutura ligada à prefeitura do Rio. A PF afirma que o mesmo advogado que atua junto à Tchecheco consegue informações sobre as fiscalizações da autarquia com um contato que seria próximo a Edvaldo Ferreira e ao então secretário João Pires (PSD), deputado estadual eleito. Os agentes apontam que há indícios de corrupção passiva por parte de Biscoito em sua atuação.
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Procurado, João Pires afirmou que foi pego de surpresa com o envolvimento de Biscoito e que enquanto foi secretário o Procon conseguiu “cumprir bem as fiscalizações e realizar vários flagrantes”. A Secretaria Municipal de Proteção e Defesa do Consumidor (Sedecon) e o Procon Carioca afirmam que Edvaldo Ferreira Borges foi exonerado e o ato será publicado na edição de segunda-feira do Diário Oficial. A pasta ainda diz “não compactuar com qualquer prática ilícita ou desvio de conduta no serviço público e ressalta que todas as denúncias e informações sobre possíveis irregularidades apuradas e responsabilização dos envolvidos”.
O GLOBO não conseguiu contato com Edvaldo Ferreira.
Em 2025, numa operação que foi o embrião da Unha e Carne, a Polícia Federal prendeu o advogado Alessandro Carracena, ex-subsecretário estadual de Defesa do Consumidor. Ele é acusado de suspeito de receber dinheiro da facção para vazar informações sigilosas e atender a interesses por meio de contatos adquiridos na vida pública. Na época da prisão, o superintendente da PF no Rio, Fábio Galvão, explicou que ficou evidente a participação dele em ações para auxiliar o tráfico:
— Há um episódio da investigação que mostra quando uma unidade do Batalhão de Choque foi instalada na Gardênia, comunidade da Zona Oeste do Rio. Essa base atrapalhava o CV. O subsecretário recebeu uma ligação do TH (Jóias, ex deputado estadual), depois que ele havia e fez uma ingerência para retirar o batalhão de lá. Os criminosos conseguiram se infiltrar na polícia e na Assembleia Legislativa. Isso é muito perigoso — diz Galvão.
O ex-secretário estadual de Defesa do Consumidor Gutemberg Fonseca foi o responsável por nomear Carracena e pela elaboração do programa Balcão do Consumidor, onde Tchecheco foi contratado pela ONG responsável pela execução do projeto. Ele nega que a estrutura da pasta e do Procon tenham sido aparelhadas pelo crime organizado.
— Eles tentaram, mas não conseguiram. Água e óleo não se misturam e por isso não chegaram em mim. O Tchecheco não teve acesso ao Procon. O Balcão do Consumidor era apenas para atendimento ao público. Se ele vendia terreno na lua, que seja responsabilizado — afirmou.
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