Jackson Vasconcelos
O cristão e o político.
A mistura entre política e igreja, entre tribuna e púlpito, me incomoda, porque os caminhos propostos para enfrentar os graves conflitos da humanidade — a guerra, a fome, a violência e a injustiça — nem sempre são os mesmos.
A receita traçada por Jesus Cristo é o amor. Exclusivamente o amor; um amor tão profundo e tão potente que alcança os inimigos: “
Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’, Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso! E, se saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso!” (Mateus 5:43-47)
Um amor que se traduz no cuidado com quem tem fome, com quem está desamparado, com quem sofre. No relato do juízo final, esse cuidado é decisivo: o justo Juiz reconhece o que fizemos, ou deixamos de fazer, uns pelos outros. Mateus 25:34-40
Na Primeira Carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo descreve esse amor, também chamado de caridade: um amor paciente e bondoso, livre da arrogância e do egoísmo, que rejeita a injustiça e se alegra com a verdade. E afirma: “Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Coríntios 13:4–7).
Na política, porém, as soluções seguem outras lógicas, muitas vezes até avessas, contraditórias. Há quem acredite, por exemplo, que matar criminosos acabará com o crime; que prender agressores, por si só, acabará com a violência contra a mulher; que tomar à força de quem tem para entregar a quem não tem será suficiente para acabar com a fome.
Essas propostas podem ser apresentadas como soluções, mas não se confundem com a transformação humana exigida pelo Evangelho. Punir uma conduta não significa eliminar suas causas. Redistribuir bens à força não significa ensinar a repartir.
É aí que os mapas oferecidos pelo púlpito e pela tribuna se afastam. E, em determinadas situações, entram em conflito.
O cristão é chamado a amar o inimigo. O político pode construir seu discurso sobre a necessidade de eliminá-lo. O cristão é chamado a reconhecer no outro um irmão. O político pode tratá-lo como um obstáculo à conquista ou à manutenção do poder.
No entanto, nada disso impede um cristão de participar da política, mas exige que ele reconheça, nas propostas que faz, nos discursos que pronuncia e nos projetos que apresenta, o mapa traçado por Jesus Cristo.
Todas as propostas, projetos e discursos de um político cristão devem, necessariamente, reconhecer que só o amor ao próximo é capaz de construir a solução para os graves conflitos da humanidade — conflitos que levam à fome, à miséria, ao crime, à violência, ao roubo e à corrupção.
Por isso me inquieta ver alguém fazendo da tribuna um púlpito ou do púlpito uma tribuna. E penso assim desde sempre. Quando a autoridade religiosa é usada para exigir fidelidade a um político, o que deveria servir à consciência passa a servir ao poder.
A igreja cristã é de Cristo. Quando um político se apropria dela para apresentar suas próprias receitas como se fossem a vontade de Deus, usurpa uma autoridade que não lhe pertence e nunca, em momento algum, lhe foi conferida.
E quando essa apropriação é disfarçada de pregação, a mentira se torna ainda mais grave: fala-se em nome de Cristo para obter poder e dinheiro e aquilo que pertence à disputa política.
A fé pode orientar a consciência de quem governa e de quem vota. Mas não pode ser sequestrada para transformar apoio eleitoral em obrigação religiosa. O voto pertence ao cidadão e a igreja pertence a Cristo. A tribuna é instrumento da política, o púlpito um canal de comunicação entre Cristo e seus fiéis.
Confundir essas duas coisas é abrir caminho para a usurpação.



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