Thiago Barcellos
Do abandono da UOP ao populismo armado: a rendição do Rio de Janeiro à desordem eleitoral
No primeiro mandato do prefeito Eduardo Paes, o Rio de Janeiro ensaiou um passo importante rumo à reconquista da ordem urbana com a criação das Unidades de Ordem Pública (UOPs). O projeto foi uma tentativa concreta de afirmar a presença do poder público em regiões onde o caos, a informalidade e a ocupação desordenada dominavam as ruas. Era, de certo modo, a versão municipal das UPPs: uma "polícia urbana" não armada, voltada para o cumprimento das regras mais básicas de civilidade.
As UOPs foram inspiradas na teoria das janelas quebradas, aplicada com sucesso por Rudolph Giuliani em Nova York. A ideia é simples: se pequenas infrações são toleradas, o ambiente se deteriora e abre espaço para crimes maiores. Se você permite a pichacão, o camelô na frente da escola, o carro estacionado na calçada, está mandando um recado claro: aqui não tem lei. As UOPs eram um embrião de cultura urbana de respeito à regra e ao bem comum.
Mas o que aconteceu? O próprio Eduardo Paes abandonou o projeto logo após ser reeleito. Por quê? Porque a UOP o colocou de frente com o eleitorado mais desorganizado: ambulantes ilegais, comerciantes informais, setores populacionais que viam na desordem urbana um meio de sobrevivência. Paes, como bom populista, escolheu entre a cidade ordenada e o voto. Ficou com o voto. E jogou no lixo o que poderia ter sido o começo da reconstrução do Rio.
O resultado é o que está diante de nossos olhos: desordem normalizada, ocupação irregular das ruas, impunidade cotidiana e a perda total da autoridade do Estado sobre o espaço urbano. Um camelô não é apenas um trabalhador informal: é, muitas vezes, parte de um sistema que envolve milícia, facções, extorsão e corrupção institucionalizada. Quando o Estado recua, outros poderes ocupam.
Corta para 2025: Eduardo Paes, agora de olho no governo do Estado, aparece com um novo discurso de impacto. Quer armar a Guarda Municipal. Diz que isso é solução para a violência. Tenta se colocar como um gestor duro, preparado para enfrentar o crime. A verdade é outra: ele está apenas tentando capturar o medo da população para se promover politicamente. E o faz sem base técnica, sem plano, sem preparação.
A Guarda Municipal não tem atribuição constitucional para fazer policiamento armado. Seu papel é zelar pelo ordenamento urbano, proteger o patrimônio, apoiar a fiscalização e mediar conflitos civis. Transformá-la em uma força armada, sem preparo, sem missão clara, é colocar esses servidores em risco e criar mais um foco de confusão institucional em uma cidade já dominada por poderes paralelos.
O Rio de Janeiro não precisa de uma Guarda armada. Precisa de uma Guarda respeitada. E para isso, o caminho não é o revólver. É o retorno às UOPs. É a presença cotidiana, a atuação firme contra o pequeno delito, o combate ao estacionamento selvagem, à invasão de calçadas, à poluição sonora. Parece pouco, mas é assim que se reconstrói a ideia de cidade.
O que Eduardo Paes está fazendo é mais uma vez fugir do problema real e vender solução de marketing. Fez isso antes, ao enterrar as UOPs. Está fazendo de novo, ao propor armar a Guarda. O resultado é sempre o mesmo: mais caos, mais medo e mais desespero.
O Rio de Janeiro precisa parar de aplaudir esse tipo de gesto. E começar a exigir coragem verdadeira: a coragem de enfrentar a desordem todos os dias, nas pequenas coisas, com inteligência, planejamento e continuidade. A ordem não se impõe com discursos. Se constrói com presença, regras e respeito.



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