Thiago Barcellos
A Nova Engenharia do Poder: como a esquerda tenta capturar o centro e dissolver a direita no tabuleiro político do Rio
1. A reconfiguração do campo político no Rio
Nos últimos anos, o Rio de Janeiro se consolidou como o principal laboratório político do país. As dinâmicas locais antecipam e refletem movimentos nacionais. Eduardo Paes, ao buscar alianças com figuras de centro e centro-direita, encarna uma nova estratégia: a reconfiguração do bloco progressista pela absorção do centro, com o objetivo de neutralizar o espaço político que poderia ser ocupado por uma direita organizada.
Aqui, vale contextualizar: Paes não atua apenas como gestor municipal, mas como um agente de recomposição de forças em torno do lulismo e de uma coalizão ampla que busca conter a força identitária do bolsonarismo e a emergência de novas lideranças conservadoras fluminenses.
2. A tática de cooptação: o centro como território de disputa
A esquerda brasileira aprendeu com o colapso do PSDB que o centro é o espaço de legitimidade eleitoral. Depois de anos em que a disputa se dava entre esquerda (PT) e centro-esquerda (PSDB), o surgimento da direita bolsonarista quebrou essa lógica dual.
Agora, a tática da esquerda é diferente: não enfrentar o centro, mas absorvê-lo.
Eduardo Paes simboliza isso: aproxima-se de lideranças do centro, oferecendo espaço e poder, ao mesmo tempo em que dilui a identidade da direita emergente. A meta é despolarizar a direita sem enfraquecer a esquerda é dominar o discurso moderado, ocupando todos os espaços de razoabilidade pública.
3. O colapso da antiga dualidade:PSDB x PT
Durante quase três décadas, a política brasileira foi estruturada pela ilusão de uma dualidade: PT e PSDB. Ambos disputavam o poder, mas com bases ideológicas próximas, ambos social-democratas, ambos estatistas, ambos defensores de coalizões amplas com o centrão.
Essa falsa oposição garantiu estabilidade ao sistema, mas impediu o surgimento de uma verdadeira direita. Quando Bolsonaro rompeu esse eixo em 2018, pela primeira vez o país passou a ter uma identidade política de direita reconhecível, algo inexistente desde o fim do regime militar.
4. A reação da esquerda: assimilar o centro, isolar a direita
O que se observa agora é uma reação sistêmica à ascensão da direita.
A esquerda percebeu que não basta derrotar Bolsonaro eleitoralmente, é preciso dissolver a sua base sociopolítica. A estratégia é retomar o centro político, apagando o espaço de interlocução conservador. Eduardo Paes no Rio é um exemplo dessa engenharia eleitoral: alianças com setores empresariais, retórica tecnocrática e pragmática, e a formação de palanques amplos com figuras de centro e até de centro-direita que antes se opunham ao PT.
Essa tática cria uma nova hegemonia discursiva: quem não está com esse campo "amplo" é automaticamente rotulado como extremista.
É o retorno da velha lógica PSDB-PT, agora disfarçada de “união democrática contra o extremismo”.
5. O Rio como espelho nacional
O Rio é o palco perfeito para esse movimento porque reúne todos os elementos da crise política brasileira:
Fragmentação partidária;
Rejeição à polarização tradicional;
Descrença nas lideranças locais;
E presença massiva do crime organizado na política territorial.
Eduardo Paes, ao articular alianças com Lula e com setores empresariais de centro, tenta transformar o Rio no protótipo da reconstrução do sistema político tradicional, enfraquecendo o campo conservador antes que ele consolide novas lideranças regionais.
6. Conclusão, O risco da hegemonia camuflada
O discurso da moderação pode se tornar uma nova forma de autoritarismo político:
ao dominar o centro e eliminar o contraditório da direita, a esquerda cria uma hegemonia travestida de pluralidade.
No fim, o eleitor fluminense é novamente colocado diante de uma falsa escolha, entre os “moderados” que orbitam o poder e os “radicais” que são excluídos dele.



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